Américas/Escravidão - 
Artigo publicado em 21 de Novembro de 2012 - Atualizado em 23 de Novembro de 2012

Especialista diz que racismo continua sendo um problema nas Américas

Pedro Ureña-Rib, professor de linguística dominicano, que participou do 1° colóquio sobre a escravidão na ilha de Guadalupe, Antilhas francesas.
Pedro Ureña-Rib, professor de linguística dominicano, que participou do 1° colóquio sobre a escravidão na ilha de Guadalupe, Antilhas francesas.
Maria Emília Alencar

Maria Emilia Alencar

Durante um colóquio internacional sobre a escravidão, que acabou nesta quarta-feira na ilha de Guadalupe, nas Antilhas francesas, o professor de linguística Pedro Ureña-Rib, evocou a existência de “sociedades racistas” nas Américas, do norte ao sul do continente. Segundo ele, não se pode abordar a memória da escravidão sem uma reflexão maior sobre a questão racial no continente americano.

Enviada especial de RFI a Pointe à Pitre

“Temos que abordar a questão racial para educar, estimular uma mudança de mentalidade, para formar pessoas e incentivá-las a se compreenderem entre elas”, disse Pedro Ureña-Rib, autor do Dicionário Cultural do Caribe, que defende uma reformulação dos manuais escolares dos países da região, em favor de uma “história caribenha”. O especialista dominicano apresentou durante o colóquio um estudo comparativo sobre os vestígios linguísticos da escravidão em três países do Caribe: Cuba, República Dominicana e Martinica (Antilhas francesas).

Partindo de uma pesquisa sobre a expressão literária nesses três países, para onde foram levados milhares de escravos para trabalharem nas plantações de açúcar entre os séculos 16 e 19, Urenã-Rib sublinhou as diferenças sobre a “memória da escravidão” em cada uma dessas nações do Caribe. Apesar das semelhanças (todos esses países contam com uma forte população negra trazida pelo tráfico negreiro), a história de cada um deles determinou uma configuração política e cultural bem diferente.

O especialista comparou as manifestações dos intelectuais e poetas a partir do “movimento da negritude” que surgiu no Caribe por volta de 1930. “Enquanto nas Antilhas francesas havia um combate na época pela autonomia, ou seja um combate contra o colonizador, a situação não era a mesma em Cuba, que se tornou independente em 1902 e onde havia uma consciência mulata, pois brancos, negros e mestiços lutaram juntos pela independência do país desde a metade do século 19”, observou Ureña-Rib. O contexto histórico determina hoje uma abordagem diferente da questão racial entre esses países, mas a problemática existe em todo o Caribe e mesmo em toda a América, diz ele, porque “somos impregnados de uma história que é consequência da presença do branco dominante, do índio segregado e do negro escravo”.

Segundo o especialista, a América hispânica tem semelhanças com o Brasil, onde há uma discriminação racial, um preconceito de cor, mas não podemos falar em segregação. “As pessoas se aceitam até certo ponto e convivem neste status quo. Mas seria necessário, não uma política de integração e sim uma política multicultural, para que pessoas de culturas diferentes convivam em harmonia”.

"Limpeza" dos manuais escolares

Pedro Ureña Rib, que atualmente é o primeiro conselheiro da embaixada da República Dominicana em Cuba, sugeriu durante o colóquio a necessidade de uma revisão dos manuais escolares em muitos países das Américas, onde a história da escravidão não é abordada com profundidade e reflexão. Ele também falou sobre a dificuldade de se conhecer a história da escravidão a partir de documentos e registros históricos.  “No que se refere à linguagem popular, não dispomos de uma memória da escravidão que nos permita abordar esse episódio da história, como falamos das guerras napoleônicas, dos gauleses ou dos romanos” concluiu o linguista.

O historiador francês Hubert Gerbeau, da Universidade de Marselha, um dos grandes especialistas sobre o tema, assinalou também durante o colóquio a dificuldade de se encontrar registros históricos confiáveis sobre a escravidão. Segundo ele, muitos arquivos foram mutilados ou são impregnados de preconceitos. Os pesquisadores recorrem frequentemente à memória oral, mas às vezes se deparam com obstáculos, como a inserção de textos escritos na memória oral ou a invenção de tradições por razões ideológicas ou comerciais. As narrativas sobre a escravidão tratam mais dos autores desses documentos do que dos “atores” desse episódio da história, observa Gerbeau.

O colóquio sobre a escravidão que reuniu cerca de 30 especialistas do mundo inteiro nos dias 20 e 21 de novembro na cidade de Pointe à Pitre, em Guadalupe, lançou oficialmente a construção do Memorial Acte, um memorial da escravidão, que deverá ser inaugurado nesta ilha das Antilhas francesas em 2015.

tags: América Latina - Cuba - Escravidão - Preconceito - Racismo - República Dominicana
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