Mandela/Repercussão - 
Artigo publicado em 06 de Dezembro de 2013 - Atualizado em 06 de Dezembro de 2013

Personalidades falam sobre Nelson Mandela

Vitrais da igreja católica Regina Mundi, em Soweto, têm imagem de Nelson Mandela
Vitrais da igreja católica Regina Mundi, em Soweto, têm imagem de Nelson Mandela
REUTERS/Siphiwe Sibeko

Gabriel Rocha Gaspar

Na edição datada de 18 de abril de 2005, a revista Time publicou sua lista das 100 pessoas mais influentes do século XX, separadas por categorias. Entre os 20 líderes e revolucionários que, aos olhos da publicação, mudaram o curso da humanidade nestes 100 anos, lá está Nelson Mandela, ao lado de gente do calibre de Mohandas Gandhi, Winston Churchill, Vladimir Lenin e Martin Luther King. Mas, entre todos estes líderes, o sul-africano é o único que passou a maior parte de seus dias como ativista atrás de grades - o que nos dá uma vaga, mas preciosa, noção de sua força simbólica.

Claro que seria pretensioso tentar dar a dimensão da influência de Nelson Mandela sobre o mundo. Até você, que lê estas linhas, é tocado (diretamente ou não) pela luta revolucionária do maior ícone anti-apartheid do planeta. Além de você, há outros sete bilhões. Portanto, o que os próximos parágrafos propõem não é uma análise dos efeitos políticos, sociais e ideológicos da determinação de Mandela no enfrentamento à divisão racial. A RFI Brasil ouviu algumas personalidades das artes e da política para saber como elas foram pessoalmente afetadas pelo líder sul-africano.

David Hinds, vocalista da banda britânica Steel Pulse e compositor de uma série de músicas anti-apartheid, o define como um "farol de esperança". A ex-ministra chefe da da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial no Governo Lula, Matilde Ribeiro, destaca sua persistência e determinação como um exemplo a ser seguido. George Nelson Preston, curador do Museum of Arts and Origins (Harlem, Nova York), diz que ele foi o "símbolo da importância de manter o foco sob as mais extremas circunstâncias de opressão". E a deputada brasileira Benedita da Silva garante que Mandela foi muito mais do que um Nobel da Paz: ele foi a "unanimidade da paz". Leia, a seguir, os depoimentos na íntegra.

Fato em Foco sobre Nelson Mandela
 
06/12/2013
 
 

Benedita da Silva, deputada federal pelo PT do Rio de Janeiro
Ele (Nelson Mandela) é um ícone internacional na defesa das causas humanitárias. Ele é para nós, uma das maiores referências políticas. Não só para Benedita da Silva, mas para todos os negros e negras do Brasil. E mesmo os que não são negros, mas defendem a liberdade, como Luíz Inácio Lula da Silva. Muitas vezes vi Lula dizer: 'olha, esse é o líder'. Assim como Obama disse pro Lula: 'esse é o cara', o Lula já tinha dito 'Mandela é o cara'.

Mandela é, sem dúvida nenhuma, alguém que estaremos consultando. O legado que ele deixou: seus escritos, seus exemplos e até mesmo de suas expressões, que gravaram nossos corações. Então, nós estamos cada vez mais convencidos de que Mandela não foi e não é um líder da África do Sul; Mandela não foi e não é um líder que mexeu apenas com Benedita da Silva ou Luís Inácio Lula da Silva. Mandela é um líder mundial que mexe e continua mexendo com todos nós que queremos países livres, democráticos, com convivência entre etnias diferentes. Este é Nelson Mandela.

Esta luta não termina logo. Ela continua. Agora, foram vencidas muitas etapas, como o Apartheid, na África do Sul. Mas há inclusão que precisamos ter ainda em toda a África, ainda existem apartheids diferentes do que aconteceu na África do Sul: apartheid da separação, apartheid pelas guerras, as lutas que ainda existem. Essa luta, de que o Mandela foi exemplo, influenciou, sem dúvida as lutas que os outros países que foram se tornando independentes e que também contribuíram para que não tivéssemos mais a luta contra o Apartheid na África do Sul. Isso também tem servido para que a luta de libertação da nossa África continue.

Então, ainda temos que ter uma relação mais estreita com a África, comercial, cultural, política... É um esforço que o Brasil vem fazendo, cada vez mais, com os países da África e ajudando para que possa ter uma libertação. Ainda que, sob protestos de alguns, ultimamente a presidenta Dilma declarou que fará o perdão da dívida da África com o Brasil. Por quê? Porque isso faz parte do processo de libertação destes países. Porque isso também é uma forma de escravidão, é uma forma de apartheid, sem que eles possam respirar, sem que possam recomeçar a sua vida.

Então, é importante que nós possamos ter o exemplo de Mandela neste enfrentamento que ele teve, judicial, político, e conseguiu dar a volta por cima. É o que nós estamos esperando; a nossa luta também é uma luta mundial, um combate total a qualquer forma de apartheid - seja racial, seja social. No caso da África, ainda teremos trabalho, como teremos com os países da diáspora. E com a luta de Mandela como grande exemplo, eu acho que estamos avançando. A África hoje - e o dia da África demonstrou isso - é uma África muito mais unida, muito mais propositiva, muito mais organizada, com projeto. É uma África cujos países hoje têm assento na ONU e discute com muita propriedade e capacidade. Esse processo segregacionista que existe em qualquer país onde há um apartheid com outra cara vai gradativamente ser abolido na medida em que vão avançando lutas como a da África do Sul.

Não sei se em sua partida poderei me fazer presente como pude ir à África do Sul quando ele estava preso, quando ele foi solto, quando fomos levar o convite para ele visitar o Brasil, quando o presidente Lula, então candidato, foi visitá-lo. Ou depois, como presidente da República também, não sei... Mas eu sei que Nelson Mandela é Martin Luther King, mas é também Winnie Mandela, é Dandara. É Desmond Tutu, é aqueles que lutam pela liberdade nas prisões, aqueles que lutam pela Justiça. E Mandela é também o presidente de todos nós: da África e da diáspora. Ele é a unanimidade da paz.

David Hinds, vocalista da banda britânica Steel Pulse
Para mim, Nelson Mandela é um farol de esperança e uma luz para a emancipação e a paz universais. E como ele disse em suas próprias palavras: um símbolo de Justiça. Ele é o exemplo clássico de um ativista, especialmente o ativista africano que luta por liberdade nos tempos modernos. Liberdade na África e no seu pedaço de África. Como aqueles que começaram no início dos anos 60, como Kwame Nkrumah. Embora a maior parte da África tenha se libertado na metade dos anos 70, restava uma grande porção chamada África do Sul, que teve de esperar até os anos 90 para se emancipar.

Pouco antes da soltura de Mandela, fizemos uma música dedicada a ele. Já estávamos escrevendo a música e ele foi solto durante a gravação do álbum 'Victims'. Chamamos vários cantores sul-africanos para cantar nesta faixa, 'Free the land': 'chuta o (presidente) Botha pra fora e liberta Mandela agora, nada de apartheid na África do Sul', essa é a letra.

Até então, a gente havia se recusado a tocar na África do Sul, assim como vários outros artistas. Era o que o momento histórico exigia. Naquela época, o CNA (Congresso Nacional Africano) e outros apoiadores da causa pediam para ninguém tocar lá para não apoiar o regime do Apartheid. Se um artista negro ia para a África do Sul ele era considerado pró-Apartheid. Não era certo para o Steel Pulse tocar na África do Sul naquele período. Melhor era seguir o conselho daqueles que estavam tentando enfrentar o regime racista.

E era um racismo institucionalizado, no qual havia uma lei que era aplicada com punições rigorosas a quem fosse contrário. Os Estados Unidos por exemplo não tiveram necessariamente um sistema de Apartheid, mas durante os anos 50 e 60, foram um país essencialmente segregado. Embora a instituição não fosse como a sul-africana, havia leis de segregação, especialmente no sul. Muita gente lutou contra, como Medgar Evers, que morreu há exatos 50 anos; Martin Luther King, John F. Kennedy. Todos estes caras fizeram sua parte para acabar com a segregação.

Se falamos do Apartheid, propriamente dito, ele não se aplica a outros lugares. Mas há subcorrentes e elementos de sua estrutura racista que ainda acontecem no mundo: na Europa, na América do Sul e em várias partes da África também... De certa forma, ele ainda está aí. Só não é mais institucional.

Mas a luta agora também é diferente. Aquela era uma época em que um porta-voz conduzia a libertação das massas; agora, são massas que vão precisar libertar massas. Como aconteceu no Oriente Médio, onde países tomaram para si a responsabilidade de se opor e derrubar os governos que oprimiam o povo. Os dias de Malcolm X, Martin Luther King, Stokely Carmichael, Mahatma Ghandi, Nelson Mandela, em que uma pessoa assumia a liderança das lutas de libertação, para mim acabaram. Estas pessoas estão em seus túmulos. Agora, você precisa assumir a sua responsabilidade e eu preciso assumir a minha para trabalharmos coletivamente pela nossa liberação e nossa emancipação física e mental.

Sem esquecer que devemos absolutamente tudo a essas pessoas. Foi um fardo imenso para eles fazerem o que fizeram. Quer dizer, se você volta 50 anos no tempo - faz quase isso que Mandela foi preso e ele passou praticamente metade da vida atrás das grades -, era uma época em que ninguém sabia o que ia acontecer. Há 50 anos, Nelson Mandela foi condenado à prisão perpétua. E eles queriam pena de morte, só não tinham prova suficiente para isso. Isso é muito significativo porque, quando as pessoas são presas, especialmente em países como a África do Sul, ninguém nunca mais ouve falar nelas.

Esses caras colocaram suas próprias vidas em risco, sem saber onde isso iria parar. Só o que eles sabiam é que tinham o dever de se opor e um serviço para prestar ao povo. Duvido muito que exista alguém na Terra hoje que seguraria a bronca de passar 27 anos na cadeia preso a seus ideais. As pessoas estão mais materialistas, sucumbem a subornos mais facilmente. Para mim, estes dias acabaram. Resta Mumia Abu Jamal, que é daquela época, está atrás das grades há 30 anos.

A gente deve tudo para esses caras que fizeram o que podiam para libertar a África e o mundo. E libertar a África significa libertar o mundo - é isso que um monte de governo ignorante que está no poder agora não percebe. Quando você liberta um país, o resto do mundo melhora. Enquanto isso não acontecer, sempre haverá guerras e ventos de guerra.

Matilde Ribeiro - Ex-Ministra Chefe da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial no Governo Lula
A luta de Nelson Mandela inspira o Brasil e o mundo para a conquista de liberdade e efetivação de Justiça, social e racial. Sua luta tem como características persistência e determinação. Os 27 anos que Mandela viveu preso, acusado de ser terrorista, não foram motivo para ele desanimar. Ele saiu da prisão, se tornou presidente da África do Sul e isso muito inspirou a militância negra em âmbito mundial. O Movimento Negro brasileiro bebe na fonte de Mandela. Sua luta pela liberdade, pelos direitos e pela justiça em vida tem que continuar agora e sempre.


George Nelson Preston - curador do Museum of Arts and Origins (Harlem, Nova York)

O erro que os africâners cometeram ao aprisionar Nelson Mandela por tanto tempo foi seguinte: apesar de eles conseguirem reprimir diversas revoltas e manifestações com violência, o fato de eles terem mantido uma pessoa isolada em um lugar por tanto tempo criou uma concentração de enorme significado simbólico. Desta forma, a prisão de uma pessoa ganhou um sentido forte demais, quase tão grande quanto os diversos movimentos coletivos. E o fato de que Mandela se recusou a ceder durante todo este tempo é quase inédito. Mesmo que ele não tivesse feito nada durante o período de cárcere, teria sido efetivo. Mas ele se tornou um ponto focal de continuidade. Houve manifestações, partidos políticos e ideologias que duraram um dia, talvez um pouco mais.

Mas este homem permaneceu em uma prisão por 27 anos sem nunca deixar de ser uma referência para todos nós. Sua habilidade de viver nestas circunstâncias sem enlouquecer, sem sucumbir ao ódio, sem saber se seria libertado ou morto, e sair olhando para o futuro, dizendo: "Ok, para onde vamos agora?"... É aí que eu acho que está o mais importante. Não podemos transformá-lo em um Deus nem colocar nas costas dele as falhas de hoje em dia, dizer que ele é um vendido. Isso é errado.

Acho que a morte de Mandela deve causar muito diálogo, muitas reavaliações. Nós temos de encarar a realidade de que o que quer que tenha dado errado depois da libertação de Mandela é nossa falha, não dele. Ele atravessou o campo inteiro e passou a bola. Ela está no nosso pé, agora. Mandela é o símbolo da importância de manter o foco sob as mais extremas circunstâncias de opressão. Sua importância, para mim, é mais a resistência na prisão do que quando ele saiu.

 

tags: Morte - Nelson Mandela
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