“A crise européia parece com a peça de Samuel Beckett, Esperando Godot. O cenário, trivial e absurdo, fica cada vez mais dramático enquanto todo mundo só faz esperar um personagem salvador da pátria que não chega nunca. Durante alguns meses, Godot foi o improvável casal Sarkozy-Merkel, o dito “Merkozy”. Mas Sarkozy, sai do palco hoje e o partido de Merkel acaba de amargar uma derrota pesada nas eleições do maior Estado federal alemão, a Renânia-Westfália. A descida aos infernos da Grécia, com uma classe política totalmente fragmentada, incapaz de compor um governo, veio demonstrar sobejamente que a solução de mais austeridade em cima de austeridade é inviável política e socialmente. O problema é que nenhum governo europeu, salvo quem sabe a Alemanha, tem condições financeiras para relançar o crescimento econômico com a gastança pública. Todo o mundo está praticamente falido e tem que pedir empréstimos aos mercados que cobram juros cada vez mais altos. A desconfiança e o pessimismo são gerais. E como na peça de Beckett, nem o suicídio é a solução: a Grécia não pode nem continuar a ser membro do Euro, nem sair da moeda única. Mais uma vez a Europa está à espera de um santo milagroso.
O novo Godot agora é o François Hollande, que assume hoje a presidência da França. O novo presidente francês não vai ter nem tempo de sentar no palácio do Eliseu. O primeiro ato presidencial, além de nomear um primeiro ministro vai ser sair correndo para Berlim para conversar com Angela Merkel. Sai o casal “Merkozy” e entra o “Merkollande”. Ouça a crônica de política internacional de Alfredo Valladão.